04/12/2011

O Cotidiano 3 - Capítulo 12 - Garotas


Se você parar para pensar, o mundo pode ser muito pequeno. Em uma semana minha vida tinha mudado completamente. Consegui um trabalho como modelo em um comercial de TV, me senti famoso, conheci Amanda, briguei com Mariana que logo e não sei como entrou no meu lugar como modelo de comercial e supostamente virou amiga de sua inimiga, Amanda. Dá para entender? É, parece complicado, eu sei...Mas o que eu podia fazer neste momento?
No dia seguinte após eu ter ido à agência e ter visto Mariana lá, tudo corria normalmente na faculdade até o momento em que meu professor Eduardo tinha me chamado em sua sala após o horário de aulas. Sua sala não era muito grande, o tapete verde no chão dava uma apararência amena à sala que tinha uma pequena mesa com duas cadeiras de frente para vários quadros com fotos de si mesmo em diversas posições egocêntricas, era o que eu esperava para a sala de Eduardo, estranhamente agradável, exceto pelo cheiro de tabaco que predominava todo o ambiente.
- Bruno, Bruno, Bruno... – Ele começou em um tom gradativo. – Meu astro.
- Algum problema professor?
- Problema? – Ele parara de me encarar nos olhos e repentinamente começara a olhar para suas próprias mãos em cima da mesa. – Não, não, nenhum problema!
- Então? – Falei enquanto o encarava nos olhos, forçando-o a olhar para mim.
- Bom, é que... – Seu tom de voz diminuira, era como uma criança quando tinha feito algo errado e queria contar para sua mãe. – Bom, a verdade é que eu gostaria de agradecer pela atenção que você nos deu na agência quando aceitou participar dos comerciais e...
Fiquei encarando-o sem piscar, ouvia tudo apreensivamente.
- Vamos dar um tempo por enquanto com seus comerciais, eu quero que você saiba que não para sempre e...
- Ok professor, eu que agradeço. – Falei em um tom seco, porém ao mesmo tempo dócil.
- E... Queria lhe falar que temos alguém no time agora e eu gostaria que você soubesse quem é...
- A Mariana? – Eduardo pareceu desconcertado por um tempo enquanto eu continuava o encarando.
- Ãh, sim...Sim...Mas como você...
- Eu vi o senhor conversando com ela na biblioteca. – E ao ver sua expressão de susto, tratei de concluir. – Sim, eu estava vigiando ela, como o senhor deve saber nós somos namorados, ou éramos, já não sei mais...
- Sim, eu sei disso. Mariana é uma garota muito bonita e também muito competente... Ela me ligou e falou que gostaria de participar do casting para um comercial que estávamos fazendo...
- Ligou? Mas como? Ela sabia do comercial?
- Devia saber... Ela me ligou falando que era sua namorada e se podia apresentar o trabalho dela, se poderia ter uma chance e blá blá blá...Então resolvi tentar.
Me senti traído por um momento. Mariana certamente andou vasculhando tudo o que eu havia fazendo e sem dúvidas tinha conversado com as pessoas da agência. Meu estômago se retorceu por alguns segundos.
- Quando ela fez os testes, nós a adoramos, ela é incrível! – Eduardo estava empolgado, não sei se ele tinha alguns desconfiômetro, mas era aparente a minha angústia naquele momento.
- Sei, deseje boa sorte para ela, por mim. – Falei para Eduardo enquanto me levantava para sair de sua sala.
- Mas...Ela é sua namorada, não é?
- Não sei, quem sabe? – Disse enquanto fechava a porta deixando Eduardo com o cara de “Eu não entendi”.
“Toc Toc Toc”. Rogério abriu a porta do meu quarto com Elisa em seu encalço.
- Oi Bru! – Elisa falou colocando a cabeça dentro do quarto. – Podemos entrar?
- Claro! – Falei enquanto tirava um livro da cara.
- E aí vamos fazer algo hoje? – Rogério falou empolgado. – Comer alguma coisa no centro, sei lá...
- Ãh... Não sei.... – Falei com uma vontade de dizer “Não”. Era como quando se sente um pressentimento, uma vontade de ficar em casa, apenas na cama descansando.
- Você vai sim! Vamos passar na Lúcia e  no Rafinha para pegar eles e então nós vamos... – Elisa falou enquanto colocava sua mão delicadamente sobre meu ombro.
- E a Mariana? – Falei enquanto percebia que Elisa estava encarando Rogério com um olhar diferente.
- A Mariana não apareceu em casa desde ontem Bru... – Elisa me olhava apreensivamente. – Ela saiu ontem a tarde e até agora não voltou, ela apenas ligou ontem a noite dizendo que ia dormir na casa de uma amiga dela...
Aquilo explica tudo. Mariana certamente tinha virado amiga de Amanda e elas deviam estar juntas neste exato momento. O que ela queria com tudo isso? Me fazer algum tipo de ciúmes? Armar algum plano de vingança? Eu sinceramente não conseguia entender.
Fomos andando até a casa de Lúcia e lá Rafinha nos pegou de carro. Todos pareciam querer me distrair, como se eu tivesse triste e a única missão deles era me entreter.
- Faz tempo que não vamos no Jimmy né? – Rafinha falou olhando no retrovisor para Elisa, Lúcia e Rafinha.
- Sem dúvidas, estou doida para dançar, o que vai ter por lá hoje? – Lúcia ria animada.
- Eu ouvi falar muito desse tal de Jimmy aí... Mas não fui lá ainda! – Rogério disse.
Chegamos em uma área da cidade onde eu costumava vir com meu vô quando era menor. Era um calçadão onde existiam várias lojas legais e também muitos lugares para comer deliciosos. As pessoas ficavam sentadas em mesas tomando seus cafés enquanto outras caminhavam alegremente com sacolas de lojas caras.
Sentamos em uma mesa apenas para comer um crepe e um suco, ficamos conversando e rindo por um tempo. Mas ninguém tinha tocado no assunto “Mariana”, e eu os agradecia por isso. Não queria pensar nele, não naquele momento em que eu estava me divertindo com meus melhores amigos.
- E os comerciais Bruno? Quando vai ser o próximo? – Lúcia perguntou docemente.
- Não vai ter mais Lú. Fui cortado do time.
- Cortado? Tipo, demitido? – Elisa parecia perplexa.
- É, tipo, demitido...
- Nossa cara, mas o que houve? – Rafinha estava de boca aberta.
- Acho que enjoaram de mim... Isso é bem normal nessa área.
- Ah eles são uns tontos e não sabem o que estão perdendo! – Lúcia me deu um abraço e eu simplesmente retribui.
- Obrigado gente, mas sabe, eu até que fico agradecido por isso...Aquilo lá não é para mim, aquele é mundo muito louco, insano... – Falei seriamente. – As pessoas lá são insanas.
Naquele momento ouviu-se duas garotas rindo enquanto saiam do café em que estávamos em frente. De primeiro momento ignorei pois pareciam me ser apenas duas garotas se divertindo, mas em um segundo olhar percebi quem eram as garotas. Amanda e Mariana. Meus olhos não puderam acreditar no que tinham acabado de ver. Mariana estava diferente, seus cabelos estavam pretos, de imediato ela não parecia ela mesma. Estavam com muitas sacolas nas mãos e pareciam muito felizes.
- Bruno! – Amanda gritou ao me ver e correu para me cumprimentar deixando Mariana para trás parecendo um pouco desconcertada.
Cumprimentei Amanda e a apresentei a todos meus amigos e então logo em seguida Mariana se aproximou da mesa, estava vermelha.
- Oi gente.
- Vocês se conhecem? – Amanda falou olhando para nós desconcertada.
- Sim, claro. – Mariana falou olhando para baixo.
- Ah já entendi... – Amanda mudou sua expressão.
- O que você fez com seu cabelo? – Elisa falou olhando de lado.
- Ah mudei um pouco... Eu precisava mudar...
- Essa vida de modelo é assim mesmo, já te falei Má! – Amanda olhou rindo para Mariana.
- Modelo é? – Elisa continuou olhando Mariana de lado.
- É gente... Eu ia contar... Estou fazendo uns serviços como modelo, nada demais... – Mariana estava mais vermelha do que um tomate.
- Nada demais? Não seja modesta Má! Você é uma das garotas mais lindas que já vi naquela agência! – Amanda disse com um sorriso de orelha a orelha. – Vamos então Má? Ainda temos que ver aquelas bolsas da Channel! Ai meu Deus! Temos que comprar bolsas, não é a melhor coisa do mundo meninas?
- E aí quando você volta para casa? – Elisa falou.
- Hoje... Digo, amanhã... Vamos ter uma gravação hoje então de lá vou para a casa da Amanda, amanhã eu vou para casa, não precisam de preocupar... – Mariana não tinha me olhado nos olhos nenhum momento, ela parecia tímida todo o tempo.
- Essa sem dúvidas não é a nossa Mariana. – Rafinha falou enquanto tirava os óculos de sol para ver Mariana que se afastava com Amanda logo mais na esquina do calçadão. – Não é mesmo...
Como as coisas podiam ser estranhas as vezes... A vida era feita de altos e baixos. Mas o mais engraçado é que eu estava aprendendo a entendê-la, de uma forma simples e pessoal, mas eu começava a entender. Ninguém pode interferir o destino do outro, nós podemos apenas deixar nossas marcas. Mas essa é a vida, quem poderia argumentar?

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