08/01/2012

O Cotidiano 3 x 14 : Algo bom na vida


As pessoas as vezes ficam cabisbaixas por estarem vivendo um momento de tristeza, dor ou sofrimento, mas o que muitas vezes elas não sabem é que essa dor é passageira, assim como a vida que passa na nossa frente, rápida como um metrô e cheia de altos e baixo feito uma roda gigante. Certa vez Charles Chaplin disse "A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos" e eu tomei isso como uma grande lição a seguir.
O ano encerrou de forma fantástica. O natal tinha sido maravilhoso ao lado dos meus amigos e o Reveillon eu passei ao lado de minha mãe na casa de meu primo Will, assim como fazíamos todos os anos. Sempre uma grande festa com todos meus tios e primos reunidos, comendo vários tipos de comida e celebrando a chegada do novo ano com muita alegria. Tinha chamado Rogério para ir conosco mas ele foi convidado por Elisa para passar o Reveillon com sua família na praia. Achei isso ótimo, mas gostaria muito de fazer a contagem regressiva para o ano novo ao lado da minha outra família, meus melhores amigos.
Pelo que fiquei sabendo por mensagens de texto, o Réveillon de todos tinha sido ótimo. Lúcia foi visitar sua tia e seus primos em São Paulo e comemorou com grande estilo a virada na Paulista. Rafinha tinha passado em sua casa mesmo. Apesar do tédio de ter que aturar as crianças dos amigos de seus pais, ele me disse que tinha se divertido jogando video game e tomando alguns goles de champagne. Rogério sem dúvidas devia ter se divertido muito com Elisa na praia e esta sem dúvidas era uma ótima oportunidade para que ele conhecesse mais a família de Elisa. Já Mariana havia apenas me enviado uma mensagem de “FELIZ ANO NOVO!” quando já era mais de meia noite. Na certa tinha passado a virada com Amanda, em seu apartamento.
Quando cheguei em casa três dias depois do Réveillon, Rogério estava esperando eu e minha mãe com um almoço de dar água na boca. Tinha macarronada à bolonhesa, nhoques macios, risoto de frango, um peru assado e também espetinhos de carne enfeitados com pimentões de todas as cores.
- Nossa! Mas que mesa mais linda! Quem fez isso? - Minha mãe dizia surpresa enquanto largava sua bolsa no sofá e ia em direção de Rogério para um abraço.
- Fui eu quem fiz dona Márcia. - Rogério dizia todo pomposo.
- Não acredito! Acho que esse almoço veio direto do restaurante para a nossa mesa. - Falei rindo enquanto dava um abraço em Rogério.
- De jeito nenhum! Eu que preparei tudo, é sério! Na minha família é uma tradição fazer um almoço bem caprichado no dia do Ano Novo, e como não estávamos juntos resolvi fazer hoje para vocês.
- Ah esse garoto aparecer em nossas vidas foi a melhor coisa que poderia ter acontecido neste ano que passou! Um espetáculo de garoto! - Minha mãe disse puxando as bochechas de Rogério que já estavam mais vermelhas do que um tomate.
- E aí como foi tudo lá na praia? - Falei enquanto sentava com Rogério na mesa para começar a me servir.
- Foi incrível sabe? Nos divertimos bastante, e acho que os pais de Elisa vão me aceitar bem como namorado dela e...
- Ah isso quer dizer que eles ainda não sabem né?
- Não! Bom, na verdade eu acho que eles desconfiam...
- Sem dúvidas, eu desconfiaria se fosse eles. - Falei enquanto pegava uma fatia grande de peito de peru.
Comemos tanto naquele almoço e por incrível que pareça a comida sobrou. Rogério era um pouco exagerado em tudo o que fazia e não poderia ser diferente com a alimentação. Mais tarde pedi para que Rogério fosse comigo na casa de Rafinha para conversarmos e chegando lá me deparei com um Rafinha enfurecido correndo atrás de algumas crianças.
- O que está acontecendo aí? - Gritei do lado de fora da casa.
- Dessa vez são primos... - Rafinha corria enquanto dois meninos loiros, gêmeos corriam com um controle de Playstation nas mãos. - O que eu fiz para merecer isso?
Logo Rafinha recuperou seu controle e fomos para dentro da casa onde ficamos tomando algumas Smirnoffs que tinham sobrado do Reveillon e jogando Jenga sentados no chão.
- Então você dormiu em um quarto separado do da Elisa, é isso? - Rafinha falou com um sorriso malicioso.
- Mas é claro! - Rogério disse em um tom de defesa.
- E a Mariana? Você teve notícias dela Bruno? - Rafinha perguntou enquanto tirava concentrado uma peça da torre do Jenga.
- Ela me enviou uma mensagem desejando Feliz Ano Novo, só isso.
- Então você desistiu de vez?
- Acho que não tenho como competir com a Amanda não é mesmo? Ela é bem mais bonita do que eu. - Falei rindo.
- Quer dizer que...? - Rafinha colocou as duas mãos sobre a boca, incrédulo.
- O que? Elas estão mesmo namorando? - Rogério disse parecendo um pouco perdido.
- Sim, eu vi elas juntas alguns dias antes do natal e elas pareciam bem a vontade juntas...
- Meu Deus! Não mais o único bissexual da história!  - Rogério disse com os olhos arregalados.
- Cara, nunca pensei que a Mariana... - Rafinha silenciou-se.
- É, parece um pouco radical né? Mas enfim, encarei numa boa, espero que a Amanda a faça feliz.
- Sou seu fã cara, sério. - Rafinha dava tapinhas em meu ombro.
Ficamos durante a tarde inteira jogando e conversando. Rogério deu a grande ideia de irmos ao Jimmy mais tarde e logo tratamos de combinar com as garotas e isso incluía Mariana.
- Alô? - A voz doce de Mariana disse ao atender o telefone.
- Oi Má! Sou eu, o Bruno! Como você está?
- Eu tô bem, desculpa não ter te ligado para desejar Feliz Ano Novo, é que ainda não tive muito tempo e...
- Não, ta tudo bem! Vamos ao Jimmy hoje a noite? Toda a galera...
- Hum, não sei se vou poder ir... Me desculpe.
- Tudo bem, eu te entendo.
- Sério? - Ela pareceu um pouco desconcertada.
- Ta certo, nos falamos com mais calma depois então!
- Ok, um beijo.
- A Mariana disse que não vai e... - Mal terminei de dizer a frase e meu celular tocou, era Mariana.
- Bruno... Quer saber? Nós vamos ao Jimmy sim... Nós, isso significa Amanda e eu. - Mariana disse com firmeza em sua voz. - Precisamos mesmo conversar sobre algumas coisas...
- Ótimo!
Mais tarde quando Rogério, Rafinha e eu estávamos prontos e passando na casa de Elisa para pegá-la juntamente de Lúcia, um grande carro vermelho parou atrás do nosso e começou a buzinar loucamente.
- Woo hoo gente! Vamos nos divertir hoje a noite! - Amanda gritava de dentro do carro e pelo lado de passageiro Mariana deu pulo e correu em nossa direção.
- Oi gente! Que bom ver vocês! - Mariana abraçou Elisa, Lúcia e por último me abraçou. - Então, como é? Vamos nos divertir ou não?
Fomos direto para o Jimmy quando a Lua já começava a brilhar linda forte no céu. Lá nos dançamos por um tempo ao som de uma banda indie que tocava grandes sucessos mas logo que minhas pernas deram seus primeiros sinais de cansaço, resolvi sentar e pedir uma água tônica para beber.
- O Reveillon acabou com a gente né? - Mariana disse rindo enquanto aparecia ao meu lado e logo pedia uma água tônica para o garçom do bar.
- Nem me fale... Viajar sempre cansa, mas e você? Onde passou o Reveillon?
- Passei com a Amanda no tênis clube. - Mariana estava séria mas sua boca delicada parecia sorrir com cada palavra que dizia. - Nós dançamos muito e também ficamos rindo de alguns caras idiotas que tentaram ficar com a gente mas nós jogamos champagne neles... Também vimos os fogos de artifício... Enfim, foi divertido.
- Isso realmente me parece bem divertido.
- Sim... Principalmente se você está ao lado de uma pessoa que te faz bem... - Mariana começou enquanto me encarava nos olhos... Alguém que te faz feliz e te ama. - Seus olhos estavam arregalados, mas mesmo assim ela não deixava de ser linda. - Bruno... Eu e a Amanda, nós... Nós estamos namorando seriamente.
Não senti nada. Fiquei dias imaginando como seria quando Mariana me contasse essa notícia, fiquei pensando como eu me sentiria, como iria reagir e para minha própria surpresa, eu fiquei sem emoção. Talvez por ela estar namorando uma outra garota, isso não tivesse despertado minha fúria, se fosse com ouro garoto talvez eu teria uma reação completamente diferente.
- Nossa, sério? - Falei forçando um sorriso. - Isso é...
- Estranho? É eu sei... A Amanda entrou em minha vida em, um momento em que eu estava muito zangada com você e olha que ironia foi tudo por culpa da própria Amanda... A vida é louca às vezes.
Nesse momento tive vontade de falar algo, mas não tinha nada em mente para dizer. Mariana começou a sair com a Amanda por minha culpa? Isso significava que ela já não me amava mais...
- Bom, eu espero que isso não seja difícil pra você... Depois irei conversar com mais calma com os outros, quero que meus amigos saibam disso pela minha boca e não de outra forma.
- Se isso é difícil pra mim? Não... De forma alguma! Você está seguindo sua vida e eu vou seguir a minha! Isso é normal, eu espero que você seja muito feliz, é isso...
- Você é incrível! Eu nunca vou deixar de te amar! - Mariana me olhou por alguns segundos e então me deu um abraço  carinhoso. - Como amigo é claro!
Rimos enquanto ríamos de Rafinha que dançava descontroladamente com Amanda no meio da pista de dança. Talvez não seria um má ideia ter Mariana como amiga. Quando todos se cansaram de dançar e resolveram se sentar em uma grande mesa para pedir uma pizza e alguns drinks para beber, meu coração dava pulos de alegria. Minha família estava crescendo cada dia mais e era um prazer enorme ver todos reunidos ali no Jimmy se divertindo, juntos. Essa era minha maior alegria, assim como Aristóteles disse: “Um Amigo se faz rapidamente; já a amizade é um fruto que amadurece lentamente”, meu fruto sem dúvidas estava completamente maduro.

Continua...
História: Bruno Henrique
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