15/01/2012
O Cotidiano 3 x 15 - Cigarros no Teatro
Será que alegria é um sentimento momentâneo? Me faço essa pergunta todos os dias antes de dormir. Já tive momentos alegres sensacionais em minha vida, e momentos que eu não poderia ter considerado sensacional na hora mas depois de algum tempo, quando você pára e percebe, nota-se que você era feliz e não se dava conta disso.
Estava vivendo um desses momentos de alegria. Eu não era um rapaz rico, não podia viajar em um transatlântico ou muito menos ter um carro de dar inveja nos outros, mas eu tinha algo precioso em minha vida. Eu tinha amor. Amor de minha mãe, amor de meus amigos. Um amor verdadeiro. E isso me deixava extremamente feliz.
- Eu sempre fico pensando em como você conseguiu deixar tudo lá em Londres e vir pra cá... Não sei se conseguiria deixar tudo pra trás... - Lúcia falou delicadamente olhando para Rogério enquanto este devorava um sanduíche de frango no Subway.
- Eu sei que pode parecer difícil sabe? Mas são experiências na vida que precisamos passar... - Rogério falava com a boca cheia e com uma última engolida continuou a falar. - Minha família está na Irlanda, ou seja, eu já estava morando há algum tempo sozinho...Digo, sozinho não, mas com o Dan.
- Aposto que ele daria tudo pra estar aqui agora com a gente né? - Elisa que estava de bruços na mesa se levantou levemente.
- Não tenho dúvidas! Ele só falava de vocês, eu fiquei muito curioso para conhecer todos vocês, juro.
- Todos querem ser como nós! Causamos inveja baby! - Elisa ria enquanto levantava os braços em uma pose divertida, fazendo com que todos na mesa rissem.
- Eu fico pensando como será o futuro... - Falei um pouco baixo entre as risadas que ainda ecoavam por todo Subway. - Será que vamos estar juntos daqui dez anos?
- Ah, não gosto muito de pensar sobre isso... - Lúcia fez uma careta.
- Mas que coisa boba! É claro que vamos estar juntos! Nós sempre estivemos e isso não vai mudar! - Elisa olhou para todos e ao ver olhares apáticos tratou de concluir. - Não é mesmo?
- Claro! - Disse Rafinha que parecia mais preocupado com seu refrigerante do que com a conversa.
- Quero estar com vocês para sempre! - Elisa deu um sorriso rápido.
Naquele momento Mariana entrou e ficou nos procurando por alguns segundos até que viu o cabelo ruivo de Rogério que com os raios de sol vindos de fora pareciam mais laranja do que nunca.
- "Oi seus lindos!" - Mariana correu até nossa mesa e começou a cumprimentar um por um com beijinhos no rosto.
- Onde está a Amanda? - Perguntei para Mariana que se sentava ao lado de Rafinha.
- Ela está na agência, fazendo algumas fotos para uma revista.... - Mariana fez cara de poucos amigos mas logo trocou por um sorriso.- Então, vai ter uma festa hoje para irmos! É um amigo da Amanda, riquíssimo por sinal e o apartamento dele é lindo, e vão estar lá muita gente bonita, rica e famosa! Vocês precisam ir!
O silêncio reinou por alguns segundos. Então Elisa, como na maioria das vezes, o quebrou.
- Nossa Má! Eu adoraria ir. Sério, mas combinei de ver algumas amigas da faculdade...Então desculpa mesmo!
- Eu posso! - Rogério disse empolgado, mas de repente mudou sua expressão para uma careta enquanto tentava colocar as mãos nas pernas, com uma expressão de dor. - Ah, é não posso! Vou com a Elisa tomar chá com as amigas.
- E eu tenho que ajudar meu pai a lavar o carro amanhã cedo, então preciso dormir... - Rafinha falou olhando para o teto.
- Ãh, desculpa Má, mas eu estou ocupada todas as noites dessa semana, estou ensinando meus avós a usarem a internet. - Lúcia deu um leve sorriso.
- E você? Qual sua boa desculpa Bruno? - Mariana se virou rindo para mim. Fiquei um pouco sem saber o que fazer então tratei de ser franco.
- Não tenho desculpa! Eu vou com vocês na festa!
- Jura? Isso é ótimo! Vou falar com a Amanda e te pegamos mais tarde então ok?
- Certo... - Eu estava um pouco fora de órbita, mas me sentia animado por poder ter algo diferente em meu cotidiano.
Meus amigos não comentaram nada sobre a festa, não sabia se eles não estavam ligando para isso ou se eles estavam chateados por eu estar indo a uma festa sem eles.
Naquela noite coloquei um jeans claro, uma camiseta branca com uma estampa retrô clássica e por cima uma camisa jeans dobrada nas mangas. Me sentia bonito, jovem e animado. Estava muito a fim de me divertir naquela noite, afinal eu não devia nada para ninguém.
Conforme tinha combinado com Mariana, as nove naquela noite elas estavam em buzinando em frente de casa.
- Você ta lindo! - Amanda gritou de dentro do carro enquanto eu saía de casa.
- Obrigado, mas são vocês que estão lindas! - Falei timidamente. E elas realmente estavam lindas. Mariana usava uma jaqueta de couro preta, blusa branca e uma saia preta, já Amanda usava um vestido curto de paête prateada.
Seguimos para o apartamento onde aconteceria a festa. Estávamos em um dos bairros mais nobres da cidades e podia-se ver lindos e grandes carros em todos os lugares. Amanda entrou no estacionamento de um prédio e logo já estávamos subindo de elevador para o apartamento "101".
- Olha quero apenas que se divirta está bem? - Mariana me puxou em um canto. - Eu sei que você é responsável, mas aqui você vai ver de tudo um pouco...
- Ok Mariana, eu sei me cuidar. - falei um pouco seco.
Quando entramos pude notar de que a festa estava um pouco parada ainda. Haviam algumas pessoas conversando em um largo sofá de couro preto. Do outro lado, alguns caras tomavam champagne enquanto riam baixo. Logo um rapaz de corpo atlético vestindo um camisa branca e jeans veio em nossa direção.
- Como estão minhas "delícias"? - Ele disse analisando Amanda e Mariana da cabeça aos pés e logo em seguida dando um abraço nelas. Logo caiu os olhos sobre mim.
- Este aqui é nosso amigo Bruno. - Amanda falou enquanto dava um olhar de censura para o rapaz.
- Prazer Bruno! - O rapaz estendeu a mão para me cumprimentar. - Eu sou o Felipe, espero que possamos ser amigos.
- Claro Felipe! - Falei com um sorriso.
- Por favor gente, fique a vontade! A festa meio que não começou ainda...Tenho que agradar meus pais primeiro, se é que vocês me entendem... - Felipe deu uma piscadela rápida por detrás de seus óculos com armação preta, certamente de uma grife muito cara. Felipe aparentava ser o tipo de rapaz rico que é tratado pelos pais da forma mais mimada possível. Tinha os cabelos curtos, mas com um corte diferente, meio bagunçado, a barba meio rala que usava lhe dava um tom um pouco mais de sério.
Realmente notei que um pessoal um pouco mais velho estava perto de um bar, sentados em lindas banquetas cor de bronze.
Fiquei ao lado de Amanda e Mariana durante um bom tempo. Nos serviram canapés e champagne, mas eu aceitei apenas o suco de laranja que foi oferecido depois. Eis que as pessoas mais velhas na festa começaram uma agitação e foram se retirando. Um homem alto e uma mulher loira falaram com Felipe e logo depois se retiraram do apartamento. Cerca de dez minutos depois muitas pessoas começaram a entrar no apartamento. Pessoas bonitas e bem vestidas. A música começou a tocar alto e logo muitas pessoas estavam dançando no meio do apartamento, onde antes estava o grande sofá de couro preto.
- Vamos dançar! - Mariana falou enquanto se levantava com Amanda.
- Não, eu estou bem aqui! Podem ir!
- Bom, tudo bem! Qualquer coisa nos encontre na pista de dança bebê!
Vi pessoas bêbadas, outras fumavam um cigarro um pouco estranho, algumas sentadas no chão fumavam narguilé e riam enquanto pareciam contar histórias. Não podia negar, o ambiente estava agradável, mas me senti como um estranho no paraíso.
- Oi Bruno, você não ta curtindo a festa? - Felipe estava de pé ao meu lado. - Posso me sentar?
- Por favor! Fique a vontade, a casa é sua não é?
- Pois é... - Felipe se sentou e ficou tomando algo que não se parecia em nada com suco de laranja. - Está servido?
- Ãh eu estou bem aqui! - Peguei meu copo que estava vazio.
- Mas seu copo está vazio! Peraí que eu vou resolver isso!
- Não...Não precisa Felipe!
- Garçom! Sirva o meu convidado aqui! - Felipe fez um gesto para o garçom que atravessou o apartamento às pressas para vir me servir.
O garçom colocou whisk e algumas pedras de gelo em meu copo.
- Mas eu não sou muito de beber e...
- Ah, qual é! Você vai fazer desfeita? Isso não é legal viu!
- Ah tudo bem vai, mas só um copo. - Falei decidido enquanto tomava o whisk fazendo cara feia.
- Forte né? Você tem que tomar aos poucos...
- Como eu te falei, eu não estou muito acostumado. - Meu estômago queimava feito brasa.
Felipe ficou conversando comigo algum tempo enquanto tomávamos nosso whisk. Ele me contou sobre sua vida, sobre como se sentia solitário por ser filho único e que desde criança ele vivia longe dos pais, pois estudava em uma escola na Suíça. E eu estava cada vez mais alegre e tonto.
- Você deveria experimentar o Absinto, na minha opinião o melhor! - Ele se levantou e foi em direção ao bar.
- Não Felipe! - Falei em vão.
Logo Felipe estava com duas taças elegantes com um liquido de cor verde. Bebemos e continuamos conversando sobre nossas vidas. Eu o quão diferente eram nossos mundos. Pelo que pude perceber, Felipe estava cercado de pessoas todo o tempo, mas ele não tinha amigos, não de verdade.
- Vem, vamos dançar. - Felipe segurou meu pulso e me puxou rapidamente. Eu estava rindo baixo, mas me sentia um pouco zonzo. Sem pensar duas vezes, caí na pista de dança com Felipe, Amanda e Mariana. Dançamos muito e eu estava me divertindo muito.
- Tudo bem? - Mariana me olhou sorrindo lindamente.
- Não poderia estar melhor! - falei aos berros enquanto Mariana apenas acenou com a cabeça e se retirou da pista de dança com Amanda.
- Isso vai ficar melhor ainda. - Felipe falo no meu ouvido, eu apenas ouvi, sem reação. Então ele tirou dois cigarros de cor escura que pareciam ter sido enrolados à mão e me entregou um.
- Um pra você e um pra mim. Vamos curtir muito essa noite! - Felipe continuava falando no pé do meu ouvido.
Eu estava um pouco fora de si mas podia compreender que aquele não era um cigarro comum. Pensei em sair dali e ir para perto de Mariana e Amanda que eu não sabia onde estavam, mas Felipe estava segurando meu braço me forçando a pegar o cigarro.
- Pega logo! - ele falou enquanto começava a acender seu cigarro.
Em um momento de puro êxtase, medo e curiosidade coloquei o cigarro na boca e deixei que Felipe acendesse. Dei a primeira tragada engolindo fumaça e tossindo em seguida fazendo com que Felipe risse de mim. Em seguida continuei fumando enquanto me soltava e dançava ao ritmo da música. Estava em um momento de paz interior, não sentia meu corpo, era como se ele respondesse somente à música, minha cabeça girava mas eu não queria saber de parar de dançar. Felipe ficou ao meu lado enquanto dançávamos, indo de vez em quando buscar mais bebidas para que tomássemos.
- Você está bem?- Felipe perguntou ao ver que eu tinha parado de dançar e estava olhando para o chão, o corpo mole.
Respondi com a língua enrolada e então fui caindo lentamente ao chão. Felipe correu e me segurou e começou a me levar para um canto do apartamento onde haviam algumas portas. Eu não conseguia distinguir muito aonde ele estava me levando, mas pelo que percebi algumas pessoas estavam ali jogadas no chão.
- Eu quero ir embora. - Falei em um tom enrolado.
- Você vai ficar bem. - Felipe me carregou ao seu lado até um grande quarto e me colocou na cama. Eu, que estava com a cabeça completamente tonta, logo que senti que estava deitado, apaguei. Não vi mais nada dali em diante.
Continua...
História: Bruno Henrique
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